Os
anos passam e sinto que uma certa dureza vai se instalando
em meu coração. O corre-corre da vida, os problemas sem solução,
as notícias
incessantes de guerras, dor, fome e miséria entram na minha vida pela
tela da tv, pelas folhas do jornal e capas das revistas.
09/12/2004
:Miséria atinge 27 milhões de crianças brasileiras, diz relatório da
Unicef O relatório "Situação mundial da infância", divulgado nesta quinta-feira
pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), mostra que 27,4
milhões de crianças brasileiras vivem abaixo da linha da pobreza e suas
famílias ganham menos de R$ 4,33 por dia, ou seja, menos de meio salário-mínimo
por mês.....
Aline
é o nome da menina , incluída dentro dessas estatísticas, que ao se
aproximar mansamente, me emocionou .
A cena não poderia ser mais corriqueira,
turistas sentados tomando um café sendo abordados por uma criança de
rua.Conhecem esta cena ??? Certamente
sim, muito comum nas cidades.
A primeira reação de meu marido foi falar
que não tinha trocado, pois ao passearmos pela cidade, vimos muitos cartazes espalhados
orientando a população a não dar dinheiro para suas crianças de rua.
A menina prontamente se manisfestou :
_ Tio,
não quero dinheiro, quero trabalhar, engraxar seus sapatos !
Sua
aparência era frágil, suja, mas seu rosto tinha estampado um sorriso
doce, alegre, ingênuo, nos desarmando complemente.
Ao nosso lado, um
agitar ruidoso chamou-me a atenção.Um grupo de adolescentes na faixa
de 13 anos , bem arrumados, visivelmente pertencente a uma classe social
previlegiada, sentou na mesa ao lado, ao mesmo tempo em que ela sentava
no chão entre a duas mesas, para finalmente, engraxar os sapatos.
Toda
desajeitada, muito engraçada, disse que sabia engraxar muito bem .Ao
mesmo tempo que suas mãos realizavam a tarefa, conversava muito, perguntando
onde morávamos, se era bonita minha cidade, se tínhamos filhos...
Foi
impossível não me deixar levar pela curiosidade e finalmente descobri
que ela tinha apenas dez anos e que seu nome era Aline.
A conversa foi se tornando animada e interessante,
mas não pude deixar de observar que os adolescentes da mesa ao lado
silenciaram.Estavam prestando atenção em nossa conversa e no trabalho
da menina.
E
lá estava ela, no meio de todos, tornando-se o centro das atenções com
sua simpatia.
Naquele momento, senti que algo de profundo estava
acontecendo em minha vida e na dos jovens. Silenciosos, olharam
para mim e em seus olhos percebi um questionamento, um ar de tristeza
.
Não,
não tinha como explicar para eles essas diferenças que existem no mundo,
essas injustiças sociais que levam uma criança de 10 anos a trabalhar
para ajudar no seu sustento.
A menina fez um belo trabalho e agradeceu
pelo que ganhou além do pedido.
Quando se afastava , provavelmente em
busca de um novo cliente, foi chamada por uma das meninas que estava
sentada na mesa ao lado e convidada a se juntar ao grupo para compartilhar o lanche
que havia chegado.
Um
olhar de cumplicidade foi lançado para mim por uma das delas,uma bela
garota de cabelos longos e negros. Aline disse que suas mãos estavam
sujas e correu para o banheiro da lanchonete para lavá-las .Saltitante e
sorrindo, voltou e sentou-se .O grupo tornou-se ruidoso novamente, só
que desta vez ela também fazia parte, conversando alegremente.O que
apenas a diferenciava dos outros era seu modo de vestir.
Acho
que aqueles jovens entenderam que eu não tinha a resposta, que não dá para
mudar o mundo, mas podemos torná-lo melhor.
Fiquei observando o que
acontecia e a cena ficará em minha memória provavelmente para sempre.
Acho que só as palavras não serão suficientes para entender o que senti
e o que quero transmitir, talvez seja preciso um pouco de sensibilidade,
imaginação e espírito aberto para captar o quanto essa passagem me comoveu.
Meu
coração agora não está tão duro ...Aline e aqueles adolescentes me fizeram
acreditar que há esperança e que no meio de notícias ruins e os problemas
do dia a dia, existem momentos como esse, de questionamento, de solidariedade,
de carinho com o ser humano.
Espero
que Aline consiga sair das estatísticas, que sempre encontre na sua
vida pessoas dispostas a ajudá-la , nem que seja com pequenos gestos como
o que presenciei.
Certamente ela e aqueles adolescentes nunca saberão
o quanto aquele momento significou para mim .