A História de Aline

Outubro de 2004

 

Os anos passam e sinto que uma certa dureza vai se instalando em meu coração. O corre-corre da vida, os problemas sem solução, as notícias incessantes de guerras, dor, fome e miséria entram na minha vida pela tela da tv, pelas folhas do jornal e capas das revistas.

09/12/2004 :Miséria atinge 27 milhões de crianças brasileiras, diz relatório da Unicef O relatório "Situação mundial da infância", divulgado nesta quinta-feira pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), mostra que 27,4 milhões de crianças brasileiras vivem abaixo da linha da pobreza e suas famílias ganham menos de R$ 4,33 por dia, ou seja, menos de meio salário-mínimo por mês.....

Aline é o nome da menina , incluída dentro dessas estatísticas, que ao se aproximar mansamente, me emocionou .

A cena não poderia ser mais corriqueira, turistas sentados tomando um café sendo abordados por uma criança de rua.Conhecem esta cena ??? Certamente sim, muito comum nas cidades.

A primeira reação de meu marido foi falar que não tinha trocado, pois ao passearmos pela cidade, vimos muitos cartazes espalhados orientando a população a não dar dinheiro para suas crianças de rua.

A menina prontamente se manisfestou :

_ Tio, não quero dinheiro, quero trabalhar, engraxar seus sapatos !

Sua aparência era frágil, suja, mas seu rosto tinha estampado um sorriso doce, alegre, ingênuo, nos desarmando complemente.

Ao nosso lado, um agitar ruidoso chamou-me a atenção.Um grupo de adolescentes na faixa de 13 anos , bem arrumados, visivelmente pertencente a uma classe social previlegiada, sentou na mesa ao lado, ao mesmo tempo em que  ela sentava no chão entre a duas mesas, para finalmente, engraxar os sapatos.

Toda desajeitada, muito engraçada, disse que sabia engraxar muito bem .Ao mesmo tempo que suas mãos realizavam a tarefa, conversava muito, perguntando onde morávamos, se era bonita minha cidade, se tínhamos filhos...

Foi impossível não me deixar levar pela curiosidade e finalmente descobri que ela tinha apenas dez anos e que seu nome era Aline.

A conversa foi se tornando animada e interessante, mas não pude deixar de observar que os adolescentes da mesa ao lado silenciaram.Estavam prestando atenção em nossa conversa e no trabalho da menina.

E lá estava ela, no meio de todos, tornando-se o centro das atenções com sua simpatia.

Naquele momento, senti que algo de profundo estava acontecendo em minha vida e na dos jovens. Silenciosos, olharam para mim e em seus olhos percebi um questionamento, um ar de tristeza .

Não, não tinha como explicar para eles essas diferenças que existem no mundo, essas injustiças sociais que levam uma criança de 10 anos a trabalhar para ajudar no seu sustento.

A menina fez um belo trabalho e agradeceu pelo que ganhou além do pedido.

Quando se afastava , provavelmente em busca de um novo cliente, foi chamada por uma das meninas que estava sentada na mesa ao lado e convidada a se juntar ao grupo para compartilhar o lanche que havia chegado.

Um olhar de cumplicidade foi lançado para mim por uma das delas,uma bela garota de cabelos longos e negros. Aline disse que suas mãos estavam sujas e correu para o banheiro da lanchonete para lavá-las .Saltitante e sorrindo, voltou e sentou-se .O grupo tornou-se ruidoso novamente, só que desta vez ela também fazia parte, conversando alegremente.O que apenas a diferenciava dos outros era seu modo de vestir.

Acho que aqueles jovens entenderam que eu não tinha a resposta, que não dá para mudar o mundo, mas podemos torná-lo melhor.

Fiquei observando o que acontecia e a cena ficará em minha memória provavelmente para sempre. Acho que só as palavras não serão suficientes para entender o que senti e o que quero transmitir, talvez seja preciso um pouco de sensibilidade, imaginação e espírito aberto para captar o quanto essa passagem me comoveu.

Meu coração agora não está tão duro ...Aline e aqueles adolescentes me fizeram acreditar que há esperança e que no meio de notícias ruins e os problemas do dia a dia, existem momentos como esse, de questionamento, de solidariedade, de carinho com o ser humano.

Espero que Aline consiga sair das estatísticas, que sempre encontre na sua vida pessoas dispostas a ajudá-la , nem que seja com pequenos gestos como o que presenciei.

Certamente ela e aqueles adolescentes nunca saberão o quanto aquele momento significou para mim .

Gramado- Rio Grande do Sul -Brazil

 

 

 

 

 

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