Viver em estado de música...

Carlos Drummond de Andrade

 

 

É estar na noite fria, se aquecendo a domicílio com o brando calor da música, melhor dizendo: acasalando-se na temperatura modulada que a música oferece, um brando não calor e não frio; o grau certo de equilíbrio e perfeição, que o termômetro do espírito bem conhece.

Ah! E como adoro!
Assim conquisto o silêncio para enchê-lo com música.

Por que a música é ainda mais pura à noite?
Só porque cessam os ruídos urbanos e parece haver um abrir de pétalas na tranquilidade?
Por que não há mais agressão do barulho à limpidez do som essencial?

Ou porque, e principalmente, é a nossa própria restauração interior, o nosso desligamento das coisas do dia, que abre espaço em nós para receber melhor a música ...

Não é estado de sonho. Nem de fugas acumuladas durante o dia, por nossa culpa, culpa dos outros, ou de ninguém: pelo simples desgaste de viver no tempo.

Então chega a noite, com o seu poder de recuperação cria condições para nos percebermos mais existentes, no sentido de adquirirmos consciência mais fina da existência.

Alcançamos uma região mais sigilosa do eu, que a movimentação e a dispersão diurnas não nos permitiam vislumbrar.

Sem surpresa, e com enlevo, mergulho nesta piscina de som, em que o nado dispensa a atividade muscular: as águas se deixam atravessar suavemente, e o movimento interno acompanha o movimento musical, fundindo-se nele.

A sensação de que somos a música ouvida não é rara, pois ela penetra como um óleo e nos dissolve em sua doçura líquida.

Já nem notamos a presença da flauta e da orquestra de cordas. Não há mais executantes.

Há música em estado puro, executada por si mesmo, ou nem sequer executada: flutuante, esparsa, convertida em ar...

"Somos todos anjos com uma asa só.
E só podemos voar quando abraçados uns aos outros"

 


 

 

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