É
estar na noite fria, se aquecendo a domicílio com o brando calor
da música, melhor dizendo: acasalando-se na temperatura modulada
que a música oferece, um brando não calor e não
frio; o grau certo de equilíbrio e perfeição, que
o termômetro do espírito bem conhece.
Ah!
E como adoro!
Assim conquisto o silêncio para enchê-lo com música.
Por
que a música é ainda mais pura à noite?
Só porque cessam os ruídos urbanos e parece haver um abrir
de pétalas na tranquilidade?
Por que não há mais agressão do barulho à
limpidez do som essencial?
Ou porque,
e principalmente, é a nossa própria restauração
interior, o nosso desligamento das coisas do dia, que abre espaço
em nós para receber melhor a música ...
Não
é estado de sonho. Nem de fugas acumuladas durante o dia, por
nossa culpa, culpa dos outros, ou de ninguém: pelo simples desgaste
de viver no tempo.
Então
chega a noite, com o seu poder de recuperação cria condições
para nos percebermos mais existentes, no sentido de adquirirmos consciência
mais fina da existência.
Alcançamos
uma região mais sigilosa do eu, que a movimentação
e a dispersão diurnas não nos permitiam vislumbrar.
Sem
surpresa, e com enlevo, mergulho nesta piscina de som, em que o nado
dispensa a atividade muscular: as águas se deixam atravessar
suavemente, e o movimento interno acompanha o movimento musical, fundindo-se
nele.
A sensação
de que somos a música ouvida não é rara, pois ela
penetra como um óleo e nos dissolve em sua doçura líquida.
Já
nem notamos a presença da flauta e da orquestra de cordas. Não
há mais executantes.
Há
música em estado puro, executada por si mesmo, ou nem sequer
executada: flutuante, esparsa, convertida em ar...